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Fuente: SERVINDI
Tenemos el agrado de presentar el poema de una joven indígena amazónica, conmovida por la lucha librada por los pueblos amazónicos en agosto del año pasado. Ella es de madre Wampis y padre Awajun y estudia actualmente Literatura en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos.
Al son de la lluvia emanan las voces hambrientas por la libertad
Lanzando amenazas infantiles y las lanzas horrísonas
Exigencias tan límpidas como el Amazonas
El gobierno,
Vacila amenazante a través de la sonrisa indígena
Tan aborrecible para el semejante
Temible para la prensa nuestra
Desabotona las leyes
Exponiendo al frío los humanos
Todo desvanece
Queremos paz grita un indiecito
El otro siempre te sonríe
Porque el bolsillo lo exige
A la hora exacta se define el llanto
Los corazones borbotean como las burbujas
Lanzas chirrían bajo el sol
¡Al fin! ¡Todos a celebrar!
Por que el blanco ya no nos sonríe
Por que Alan dio su adiós
La Amazonía la de siempre
poesia recebida por email, através da Red de Arte y Cultura - Lima, Peru
“A mídia costuma publicar só o que é espetacular, sensacional, mesmo que tenha que esconder a verdade. Hoje, fala-se mais da cor da pele de Barrack Obama do que do seu projeto político, como ontem falou-se mais dos seios da Carla Bruni do que das idéias direitistas do seu marido Sarkosy.
A mídia tem dono, e reflete as opiniões do seu proprietário: o Fórum Social Mundial não tem dono, e deve refletir as nossas.
Foro, Fórum, significa etimologicamente a praça pública, onde se pode discutir livremente. Este nosso Foro é mundial e deve, portanto, discutir os assuntos do mundo.
Temos que saudar o fim da era Bush e seus parceiros, mas ficar atentos à nova era que começa. Aplaudir os primeiros atos de Barrack Obama, mas analisá-los com cuidado. Aplaudir sua decisão de fechar Guantânamo, mas lembrar que isso não basta: é necessário restituir Guantânamo ao seu legítimo dono, que é o povo cubano. Aplaudir a ordem de acabar com a tortura, mas lamentar que os torturadores não sejam punidos por esse crime de lesa-humanidade e continuem nos seus postos de comando. Aplaudir o desejo do novo presidente em dialogar com todos os países, mas explicar que não queremos, como ele promete ou ameaça, não queremos ver o seu país liderando o mundo - essa tarefa não compete nem aos Estados Unidos nem ao Paraguai, mas sim à Organização das Nações Unidas que para isso foi criada e tantas vezes tem sido desrespeitada pelo país de Barrack Obama.
O Fórum é social, e temos que falar do genocídio dos palestinos. Temos que separar, de um lado, o cruel governo de Israel e, de outro, as centenas de milhares de judeus que com ele não concordam. Não devemos cometer a injustiça que se fez com os alemães, pensando que todos fossem nazistas, quando muitos morreram lutando contra Hitler e seus asseclas.
Milhares de judeus, dentro e fora de Israel, condenam e se envergonham do que fez e faz o seu governo, que representa tão somente aqueles que o elegeram, mas não o judaismo. Dentro de Israel existem organizações como a dos Combatentes Pela Paz, de Chen Allon, que condenam a invasão e denunciam seus crimes. Tenho orgulho em dizer que, para isso, usam o Teatro do Oprimido entre outras formas de combate.
No Oriente Médio já se inverteu a distribuição de papéis: se, ontem, Israel foi o pequenino David, hoje é o gigante Golias, filisteu. O novo Golias, apoiado pelos Estados Unidos, em 22 dias matou mais de 300 crianças e centenas mulheres e homens, civis ou combatentes. Eu chorei vendo a fotografia de um menino, um pequenino David palestino, jogando pedras contra um tanque de guerra. Se a lenda de David e Golias, ontem, foi apenas lenda, a história de Golias e David, hoje, é triste realidade: os 1.300 mortos ainda estão sendo retirados dos escombros, sem as solenes pompas fúnebres dos 13 soldados israelis. O Fórum e o mundo não podem esquecer esse crime antes mesmo que sejam enterradas suas vítimas.
Nosso Fórum é pluralista, e deve se manifestar contra o colonialismo italiano que ofende a nossa soberania, que tenta interferir nas decisões da nossa Justiça, como está sendo o caso da concessão de asilo a Cesare Battisti. Existe uma lei brasileira que proibe a extradição de pessoas condenadas em seus países à pena de morte ou à prisão perpétua. É este o caso, é esta a lei! O ministro Tarso Genro apenas cumpriu a lei - a lei brasileira. O presidente Lula foi claro explicando aos italianos as sólidas bases da nossa decisão, mas parece que eles não entenderam, nem disso são capazes. Por quê?
A Itália, que foi o berço do fascismo e deveria ser também a sua sepultura, mostra agora que a ideologia colonialista ainda está viva e pretende anular decisões soberanas do Brasil, invadindo o nosso Judiciário e querendo nos ensinar a diplomacia da obediência e da submissão. Temos que repudiar essa ofensa e libertar o prisioneiro!
Nosso Fórum é social, e a economia também. A maioria dos países que estão em crise, ou dela se aproximam, sempre disseram não ter dinheiro para melhorar a Educação, a Saúde, a Previdência Social. De repente, para socorrer seguradoras, bancos e montadoras, esses governos descobriram que tinham bilhões e trilhões de dólares, euros, iens e libras. Nosso Fórum tem a obrigação moral de interrogar os senhores da Davos: de onde veio esse dinheiro? Quem os escondia? Quanto sobrou? Onde estão?
O nosso Fórum Social também é brasileiro e é camponês: devemos saudar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, que é o mais democrático e bem organizado movimento de massas que o Brasil já teve, e que completa agora 25 anos de lutas pela terra, luta que continua.
O Fórum Social Mundial não é daqueles que dizem Hay Gobierno? Soy Contra, e porque assim não é, deve se alegrar em receber tantos presidentes de tantas Repúblicas sulamericanas juntos neste evento: Evo, Correa, Kirchner, Chavez, Lugo e Lula. Nunca se viu fraternidade igual. Queremos agora ver os resultados concretos dessa irmandade.
Devemos, muito cordialmente, lembrar aos nossos presidentes que a Política não é a arte de fazer o que é possível fazer, mas sim a arte de tornar possível o que é necessário fazer!
Caminhar não é fácil! As sociedades se movem pelo confronto de forças, não pelo bom senso e justiça. Temos que avançar e, a cada avanço, avançar mais, na tentativa de humanizar a Humanidade. Não existe porto seguro neste mundo, porque todos os portos estão em alto mar e o nosso navio tem leme, não tem âncoras. Navegar é preciso, e viver ainda mais preciso é, porque navegar é viver, viver é navegar!
Eu sou homem de teatro e não posso deixar de falar de Arte e Cultura quando falo de Política, porque a Política é uma Arte que a Cultura produz.
Temo que, mesmo entre nós, muita gente ainda pense em arte como adorno, e nós dizemos: não é! A Palavra não é absoluta, Som não é ruído, e as Imagens falam. São esses os três caminhos reais da Estética para o entendimento: a palavra, o som e a imagem. São também os canais de dominação pois estão os três nas mãos dos opressores, não dos oprimidos: a Palavra dos jornais, o Som das rádios, as Imagens da TV e do cinema estadunidense, dominam nossos meios de comunicação e invadem nossos cérebros com seu pensamente único, seus projetos imperiais e suas mercadorias.
Acabou-se o tempo da inocência… o tempo da contemplação já não é mais. Temos que agir!
Palavra, imagem e som, que hoje são canais de opressão, devem ser conquistados pelos oprimidos como formas de libertação. Não basta consumir Cultura: é necessário produzi-la. Não basta gozar arte: necessário é ser artista! Não basta produzir idéias: necessário é transformá-las em atos sociais, concretos e continuados.
A Estética é um instrumento de libertação.
Eu felicito o nosso Ministério da Cultura pela criação de mais de mil Pontos de Cultura no Brasil inteiro, onde o povo tem acesso não só à Cultura alheia, mas aos meios de produzir sua própria Cultura sem servilismos, sua Arte sem modismos, porque entendemos que Arte e Cultura são formas de combate tão importantes como a ocupação de terras improdutivas e a organização política solidária.
Sonho com o dia em que no Brasil inteiro, e no inteiro mundo, haverá em cada cidade, em cada povoado ou vilarejo, um Ponto de Cultura onde a cidadania possa criar e se expressar pela arte, afim de compreender melhor a realidade que deve transformar. Nesse dia, finalmente, terá nascido a Democracia que, hoje, só existe em Fóruns como este!
Ser cidadão, meus companheiros, não é viver em sociedade: é transformar a sociedade em que se vive!
Com a cabeça nas alturas, os pés no chão, e mãos à obra!
Muito obrigado.”
“O sonho pelo qual brigo exige que eu invente em mim a coragem de
lutar ao lado da coragem de amar” (Paulo Freire)
Discurso de Boal No Forum Social Mundial
Nos dias 04, 05, 06 e 07 de outubro, participei do I Festival Internacional de Hip Hop de Cali, com o tema “Cultura de Paz”.
Localizado na cidade de Cali, Valle del Cauca, Colombia, e organizado pelo Colectivo de Hip Hop de Cali em parceria com outros grupos e instituiçoes, o festival contou com muitas apresentaçoes de Rap e Break; o grafite, muito admirado, porém com dificuldades de conseguir espaços na cidade (ainda que a Universidade del Valle seja completamente pintada!…); gente de várias partes de Colombia, internacionais… um festival muito bonito e bem produzido, com muita qualidade!!O tema “Cultura de Paz”, sob a perspectiva dos organizadores, é uma aposta a um processo de paz que que permita a liberdade de açao e expressao sociais e que passe necessariamente por justica social, reparaçao de danos (morais, sociais, psicológicos) e preservaçao da memória coletiva.
Valle del Cauca está em uma das regioes atualmente bem afetadas pelo conflito armado em Colombia, onde atores sociais importantes (universitários, lìderes comunitàrios, campesinos, indìgenas) sao apontados como terroristas por suas atividades sócio-políticas, perseguidos e assassinados, e esse Hip Hop nao dá as costas para isso. Nas letras das músicas, nas apresentaçoes, nos encontros, se ressaltava a violencia social vivida, bem como as violencias do racismo, do empobrecimento das comunidades indígenas, campesinas e negras; da exclusao urbana. O pano de fundo desse festival foi anti-militarista, objetor de consciencia; denunciador de injustiças, palco para direitos humanos; formativo, multi-cultural e ancestral.
“En Colombia durante las ultimas cinco décadas ha existido una dinámica de conflicto social de tendencia creciente, principalmente en las zonas rurales, donde el accionar de los diferentes grupos al margen de la ley ha ocasionado desestabilización, inseguridad, zozobra y una masiva movilización de comunidades hacia los centros urbanos, generando con ello dificultades de diferente índole frente a la oportuna satisfacción de sus requerimientos mínimos en aspectos como: seguridad, estabilidad emocional, vivienda, educación, salud, educación, empleo, entre otras.”1
Meu primeiro contato nesta cidade foi a partir de Jhon Jota, rapper e educador, trabalhador social de longo tempo dentro do Hip Hop, com juventude e com a localidade de Aguas Blancas, situada num bairro popular de nome Siloe. Aguas Blancas é um pedaço de terra aonde a maioria, negra, chega desplazada do campo ou de outras cidades da regiao, devido ao conflito armado. Este é um bairro empobrecido, violentado, marginalizado. Alí trabalha Jota, em uma organizaçao de base que surgiu com o esforço dessa mesma gente, um espaço para reunioes, encontros, cultura e formaçao.
Numa movimentada avenida da cidade, uma pixaçao: Com quem Fica as Terras dos Desplazados?
O Hip Hop de Cali está em um esforço constante em estar conectando-se com outros grupos e redes: Movimento de Mulheres Populares e Inmigrantes, Rede de Objetores de Consciencia, educadores populares, com a Universidade. Procuram levar a vivencia de um movimento cultural de rua para estes outros espaços; alimentam o desejo de envolver e aprofundar mais e mais estes trabalhos nos bairros populares.
De passagem por Colombia, participei de uma experiencia bem interesante através de um programa que se relaciona com criancas e jovens trabalhadores. A Casa del Niño, Niña y Jóven Trabajador Doña Léo é um programa da Fundación Creciendo Unidos (sede em Bogotá), e meu trabalho aí foi umas oficinas de pintura de camisas e murais com a criancada, tendo como perspectiva dialogar sobre direitos humanos e resolucao de conflitos. O trabalho foi bonito! assim, fiz uma entrevista com Vicente Prada, coordenador da Casa, localizada em Cucuta, Norte de Santander, Colombia.
Que é a Fundacao Creciendo Unidos e a Casa del Niño Trabajador Doña Léo? A Casa é um programa que faz parte da Fundacao, e em si busca implementar ferramentas que melhorem a qualidade de vida das criancas y jovens trabalhadoras, bem como de suas familias. Entao é uma busca pela dignificacao dos trabalhos deles e de suas familias, identificando imediatamente quando um trabalho é abusivo ou explorador. A Fundacao é uma organizacao, uma associacao civil, sem animo de lucro, que completa em Colombia 20 anos implementando uma série de oficinas de formacao; em si é uma Fundacao que promove e defende toda a populacao com que trabalha: criancas e jovens trabalhadoras, e suas familias, de setores populares, identificando problemáticas sociais e tratando de intervir. Tambem se trata de dar uma opcao de vida atraves da construcao de projetos de vida tanto individuais quanto coletivos para que estas pessoas tenham um horizonte mais claro na construcao de seus ideais de vida. E que aí possam eles descobrir que tem a seu alcance as ferramentas que permitem precisamente isso, melhorar a qualidade de vida deles e no interior de suas familias.
Como comecaste neste trabalho? Comecei aqui mesmo em Cúcuta, ja tem quase dez anos, como voluntário. Este projeto comecou aqui através de atividades bem lúdicas, recreativas, em setores populares, mas muito comerciais, onde havia suficiente populacao de criancas e famílias trabalhadoras. Primeiro identificamos o grupo, e através de estratégias de divulgacao, tratávamos de concentrar e organizar as criancas e jovens. A partir daí, as pessoas nos abriram um espaco, um reconhecimento a Fundacao como tal. Foi uma ferramenta fundamental a recreacao, atividades deportivas, como processo de enlace, além de todo acompanhamento sócio-afetivo, pois sao famílias que estao trabalhando, e neste cenário ocorre muitas coisas que possam diminuir a auto-estima, pelo fato de estarem na economia informal, sao discriminados, estigmatizados. Mas pouco a pouco experimentam esta ferramenta valiosa que é o jogo e a recreacao acompanhada pelo afeto que brindamos, fomos sendo afetados, e depois de quase dois anos nesta dinamica, tivemos a oportunidade de abrir uma casinha onde podiamos nos concentrar com eles e comecar o que é o programa hoje. Eu era voluntário e me encargava dessa parte, da estratégia lúdica-deportiva. Claro que acompanhado de muitas outras pessoas que iniciaram este processo, e neste momento ja nao estao, mas que deixaram seu aporte e sua intencao de transformar.
Voces defendem o trabalho infantil? Defendemos o trabalho infantil desde uma valorizacao crítica das meninas, meninos e jovens trabalhadores entendendo o trabalho infantil nao como algo intrinsicamente ligado a pobreza, defendemos como algo, digamos como um fenomeno cultural, porque o trabalho infantil em nossas culturas andinas sempre esteve aí presente entre nossos pais, avós, ancestros, tu perguntas e descobre que desde criancas estao trabalhando e igualmente nós somos criados e crescemos com essa cultura de trabalho desde o berco. E nao vendo como algo nocivo para a saúde ou o bem estar fisico ou psicológico, vemos como uma ferramenta que nos permite aprofundar nosso sentido de luta porque muitas vezes as condicoes que temos nao sao as mais indicadas em uma sociedade que constantemente nega nossos direitos. E nos perguntamos, se é uma sociedade que nega direitos aos adultos, que parecem ser, entre aspas, pessoas que tem um grau de maturidade e uma participacao mais inserida na sociedade, que fazem com as criancas? Vemos as criancas e jovens trabalhadores como uma possibilidade de melhorar, nao como um problema mas como parte da solucao, que através de seu trabalho, seja ele individual ou familiar, dá um grande aporte economico a sua familia. No momento em que se está formando para o trabalho, se está formando para a vida, se esta tratando de suprir essas necessidades básicas. E é bonito ver como através de seu trabalho eles formam sua personalidade, sua identidade e se projetam a um presente e a um futuro. E é mais bonito ver tambem como se organizam, como buscam espacos de participacao, de pressao, aonde possam aportar influindo tanto politica como socialmente, defendendo seu direito inato a trabalhar.
Em que tipos de organizacao se constituem? A organizacao que eles levam se chama NAT’s (niños, niñas y adolecentes trabajadores). Esta sigla é mundialmente conhecida, a organizacao aqui elege pessoas que podem delegar ou representar os grupos de base. E o que fazem desde aí, e porque: basicamente a promocao e defesa de seus direitos que tem como NAT’s, tratando de desmontar esse imaginário que temos dos meninos e meninas trabalhadoras como explorados ou que esteticamente fazem ver uma sociedade feia. Mas nao somente em defesa dos NAT’s, mas em defesa dos adultos também, sim? Aí aproveitam o espaco para divulgacao de seus direitos e dos direitos humanos como tal. Eles vem a necessidade e validam muito os espacos de organizacao. É um processo muito motivador ver como a partir da leitura que eles tem da vida, ver este espaco que possibilita a sua participacao, sua vida democrática e dessa maneira testando uma nova cultura de infancia, uma cultura aonde jovens trabalhadores se vejam como sujeitos, como atores sociais, estao ai presentes, que tem voz, que tem voto, que tem criterio, que sao capazes de ler a realidade; sao pessoas propositivas. Eles propoem atraves desta organizacao estratégias inovadoras, creio que é um espaco de oxigenacao da sociedade. A Fundacao aposta neste espaco e ja se tem feito grandes esforcos para que eles sigam tendo estes espacos e validando e consolidando cada vez mais este processo.
Como voces se relacionam com as leis de protecao a infancia? Este é um tema bastante discutido com os NAT’s, porque em certo momento os colocam em um marco de ilegalidade; porque já em américa latina temos espacos ou sao aprovadas leis que automaticamente fazem ver aos Nat’s como ilegais na socieddae. Porque criminalizam ao trabalho infantil, e a luta é contra isso. Criminaliza algo que também é cultural, que nasce com eles, que é inerente ao ser humano, e a luta é contra estas leis. Atualmente Colombia assinou uns planos de erradicacao do trabalho infantil, e que repercussao tem isto nos Nat’s? Bem, temos vivido que estas politicas aprofundam os problemas que circundam os NAT’s. Agora eles tem que ir a lugares de mais alto risco porque tem que se esconder das leis, e das pessoas que as aplicam. Vao a lugares muito perigosos, de trafico, de prostituicao, para realizar seu trabalho. Estamos contra e fazemos uma frente propositiva a partir dos NAT’s para que se faca uma reforma nestas leis para que nao se apliquem com tanto desconhecimento sobre trabalho infantil. A OIT (Organizacao Internacional do Trabalho) nao descrimina por exemplo um trabalho digno, familiar, de um trabalho indigno; fazem ver a mendicidade e a prostituicao infantil como um trabalho. Nós acreditamos que um trabalho dignifica, a prostituicao infantil nao vemos como trabalho, e a OIT a classifica como tal. Obviamente existe trabalho explorador, mas através de como trabalhamos com os jovens eles ja sao capazes de reconhecer e reaccionar contra isto através dos mecanismos necessarios.
Que pensam do imaginário coletivo da família ideal: aquela aonde os pais trabalham e os filhos dividem seu tempo entre estudar e brincar? Estes sao imaginarios errados que temos a partir da mesma concepcao que temos da crianca nao como sujeito, mas como objeto, que tem que protege-lo, que tem que dar tudo, e que o meio que o rodeia é que esta mal. Entao, o queremos é encaixá-lo e superprotege-lo; nao vemos nele uma pessoa que tem critério e que pode contribuir. E nesse caso eles tem muito o que aportar, sao eles que estao lutando diariamente contra a pobreza. Estes sao imaginarios que temos, da familia formada por pai, mae, com seus filhos; o pai tem a obrigacao de sustentar e suprir as necessidades da familia, mas é dificil falar disso em um contexto como o nosso, onde se aprofundam os conflitos sociais, onde os direitos sao menos, e vemos uma transformacao nessa familia, onde o pai e a mae tem que sair pra trabalhar e o que eles ganham nao é suficiente, entao os filhos tem a necessidade de aportar economicamente, tem que enfrentar a vida. É mais questao de sensibilizar a sociedade como tal: é muito dificil que a sociedade erradique o trabalho infantil enquanto exista esta desigualdade social. Sempre vamos ver estas familias na rua, sob a economia informal. Estamos sob umas politicas copiadas de uma ótica ocidental que nos querem impor. No caso em que nao haja exploracao ou mal-trato, pergunte a um menino ou menina porque ele trabalha, e ele ou ela vai dizer “porque eu quero”, “porque eu gosto”. E que ele/a nao apenas trabalha, mas tem seu espaco de estudar, está escolarizado, muito diferente do que querem vender, a crianca explorada, que nao estuda. Eles sao pessoas que repartem seu tempo para estudar, trabalhar, participam dos cursos na Fundacao; que estao sendo donas de sua vida, de seus espacos, de seu tempo.
Que avancos temos hoje em infancia? Em Colombia, o ano passado surgiu uma polemica com a reforma do antigo código do Menor que tínhamos. Há umas leis para a infancia novas que, estudando a fundo, é dificil dizer se há avancos nesta área. No fundo, continuam vendo a crianca da mesma maneira protecionista; se aprovou uma lei aonde o adolescente ja pode ser julgado como um adulto, em alguns casos.
Nao é contraditório? Sim, é contraditório, com um discurso tao protecionista para o trabalho infantil. Mas claro, se fala de politicas públicas mas nao sao políticas públicas, sao leis ditadas, que nao sao para o beneficio social. O fato é que fazem ver meninos/as e adolescentes como problema. Estas leis facilitam para que existam mais dinheiro da Comunidade Européia a Colombia; existem programas aonde se lida com uma quantidade enorme de dinheiro destinado a infra-estrutura. Vao criar Centros de Reclusao somente para adolescentes julgados como adultos. Nós tratamos de comentar isso aos NAT’s, para que eles através de sua organizacao possam fazer frente a isso, que formem seus próprios critérios e sejam propositivos frente a questao. Mas sim, também tem avancos, a criacao destes espacos de discussao por parte dos NAT’s, é muito bonito ver estes espacos movimentados por eles mesmos.
Como se relacionam os NAT’s dentro do contexto polítco de Colombia? A conjuntura política de Colombia afeta muito as classe populares, formadas em sua maioria por criancas, jovens e mulheres trabalhadoras. Devido ao conflito armado eles deixam o campo e vao as cidades em busca de uma opcao de vida, o que faz com que se incremente a informalidade. Estes jovens enfrentam um contexto de perseguicao enorme, tem que se fazer mais invisíveis para realizar seu trabalho, competir para sobreviver, e isso aprofunda seu problema. Sao recolhidas da rua de maneira bruta e, quando reconhecem que é um desplazado, sao interrogados de maneira irregular, com a ansia por parte das forcas armadas públicas em ter alguma informacao acerca das forcas armadas ilegais. E os jovens, também com a necssidade de ter algo pro seu sustento, sao facilmente utilizados por pessoas para fazer trabalhos de inteligencia para estes mesmos grupos armados, lagais ou ilegais. A tendencia é que isto se agudize, porque cada vez sao mais os atores armados que estao guerreando nesta cidade, grupos que por estas politicas que se levam aqui nao se desmovilizaram, se tranformaram, e continuam a delinquir dentro de um aspecto mais legal.
Para nós é muito importante a conjuntura política de Venezuela, porque lá se está realizando experiencias de organizacao muito válidas que apontam para o social, que apontam para a produtividade familiar, entao estamos tratando de nos comunicar com essas organizacoes, ver como podemos nos alimentar delas. Temos feito intercambios aonde vemos a possibilidade de aplicar algumas destas experiencias. Vemos que sao experiencias que valorizam a economia popular e solidária, e estamos vendo como através de nossas oficinas sócio-formativas podemos fazer algo mais integrado com a família e que se beneficie diretamente a comunidade.
Que é infancia? Responder a essa pergunta seria momentanea, porque é um conceito que se construe no dia a dia, a infancia. Podemos definir que é um fenomeno cultural que se construe, nao podemos construir un conceito de infancia se nao é a partir da leitura da realidade que nos dao as próprias criancas. Neste momento cremos que a infancia é aquela grande massa, este presente e este futuro de uma sociedade que nao escutar-los, que nao dar a eles espacos de participacao, é o pior erro que podemos cometer. Eu creio que criancas e adolescentes sao pilares, convocados a ser aqueles atores de transformacao social. Dedicar-se a infancia é dedicar-se ao presente e ao futuro; desta maneira é uma nova cultura de infancia que vai ser chamada a ser protagonista. ![]()
Contato com Vicente: pradavicente@yahoo.es
Fundacion Creciendo Unidos: www.creciendounidos.org.co
Instituto de Formación de Educadores de Jóvenes, Adolescentes y Niñas Trabajadores para America latina y Caribe: www.infejants.org
Por Leonardo Boff*
A expressao “choque de civilizacoes” como formato das futuras guerras da humanidade foi cunhada pelo fracasssado estrategista da Guerra do Vietna Samuel P. Huntington. Para Mike Davis, um dos criativos pesquisadores norte-americanos sobre temas atuais como “holocaustos coloniais” ou “a ameaca global da gripe aviaria”, a guerra de civilizacoes se daria entre a cidade organizada e a multidao de favelas do mundo.
Seu recente livro “Planeta Favela”(2006) apresenta uma pesquisa minuciosa (apesar da bibiografia ser quase toda em ingles) sobre a favelizacao que esta ocorrendo aceleradamente por todas as partes. A humanidade sempre se organizou de um jeito que grupos fortes se apropriassem da Terra e de seus recursos, deixando grande parte da populacao excluida. Com a introducao do neoliberalismo a partir de 1980 este processo ganhou livre curso: houve uma privatizacao de quase tudo, uma acumulacao de bens e servicos em poucas maos de tal monta que desestabilizou socialmente os paises perifericos e lancou milhoes e milhoes de pessoas na pura informalidade. Para o sistema eles sao “oleo queimado”, “zeros economicos”, “massa superflua” que sequer merece entrar no exercito de reserva do capital.
Essa exclusao se expressa pela favelizacao que ocorre no planeta inteiro na proporcao de 25 milhoes de pessoas por ano. Segundo Davis 78,2% das populacoes dos paises pobres é de favelados (p.34). Dados da CIA, de 2002, davam o espantoso número de 1 bilhao de pessoas desempregadas ou subempregadas favelizadas.
Junto com a favela vem toda a corte de perversidades, como o exército de milhares de criancas exploradas e escravizadas, como em Varanasi (Benares) na índia na fabricacao de tapetes, ou as “fazendas de rins” e outros órgaos comercializados em Madras ou no Cairo e formas inimagináveis de degradacao, onde pessoas “vivem literalmente na m”(p.142).
Ao Império norte-americano nao passaram desapercebidas as consequencias geopolíticas de um “planeta de favelas”. Temem “a urbanizacao da revolta” ou a articulacao dos favelados em vista de lutas políticas. Organizaram um aparato MOUT (Military Operations on Urbanized Terrain: operacoes militares em terreno urbanizado) com o objetivo de se treinarem soldados para lutas em ruas labirínticas, nos esgotos, nas favelas, em qualquer parte do mundo onde os interesses imperiais estejam ameacados.
Será a luta entre a cidade organizada e amedrontada e a favela enfurecida. Um dos estrategistas diz friamente:”as cidades fracassadas e ferozes do Terceiro Mundo, principalmente seus arredores favelados, serao o campo de batalha que distinguirá o século XXI; a doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e de duracao ilimitada contra segmentos criminalizados dos pobres urbanos. Esse é o verdadeiro choque de civilizacoes”(p.205).
Sera que os métodos usados recentemente no Rio de Janeiro com a militarizacao do combate aos traficantes nas favelas, com verdadeiras execucoes, já nao obedece a esta estratégia, inspirada pelo Império? Estamos entre os países mais favelizados do mundo, efeito perverso provocado por aqueles que sempre negaram a reforma agrária e a inclusao social das grandes maiorias pois lhes convinha deixá-las empobrecidas, doentes e analfabetas. Enquanto nao se fizerem as mudancas de inclusao necessária, continuará o medo e o risco real de uma guerra sem fim.
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Leonardo Boff é teólogo e escritor.
Estando em Caracas, me encontrei com uma pessoa que me convidou a conhecer e participar de umas atividades na cidade de Barquisimeto, Estado Lara, Venezuela. Jeanett Garcìa é “uma dona de casa e lutadora social”, como se define e, após as atividades de intercambio e fortalecimento mutuos que realizamos, gravei uma conversa que tivemos, mais ou menos uma entrevista, para aproveitar e fazer conhecer a experiencia tao interesante que ela tem com os CTU (Comites de Tierra Urbana), e com a luta pelo direito a uma moradia digna. Jeanett também participa da Red Popular de Usuári@s del BanMujer e é propulsora do novo partido, o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela).
O que è um Comité de Terra Urbana?
Os CTUs (Comités de Terra Urbana) nascem a partir do decreto 1.666, em fevereiro de 2002. Este decreto sai como um ato de justiça social, aonde se diz que a terra è de quem a habita. Entao, propriamente falando das terras urbanas, o decreto vem a iniciar um processo de regularizaçao da posse da terra urbana; a terra urbana, nossos bairros, quem os formou foram as pessoas, com seu proprio esforço, bairros com jà 30, 40, 60 anos, foram estas pessoas quem os construiu. Entao, por justiça, o governo concede a essas pessoas a titularidade. Para poder alcançar essa regularizaçao, se criaram os CTU, que è uma organizaçao de base formada por uma assembleia, aonde a legitimidad se da atraves desta assembleia de cidadaos e cidadas. Assím nascem os CTU, com um ambito que vai de 200 a 400 famílias, aonde se elegem voceros (pessoas que sao porta vozes dos procedimentos e decisoes realizados em coletivo) por quadra ou por rua - isso ja è a comunidade mesma quem decide sua forma organizativa - e se inicia com um censo, depois que se conformam; se faz um levantamento cadastral, se recolhe os depoimentos dos proprietarios do barraco, ou da casa. Este CTU se apresenta em um escritorio municipal ou nacional para irem formalizando a regularizaçao.
Um CTU tem uma estrutura organizativa horizontal, com comissoes de trabalho, onde participo coordenando o processo de regularizaçao de terras com os demais companheiros do mesmo setor, trabalhamos juntos mais ou menos 5 CTUs.
Entao, a regularizacao da terra, a posse da terra se consegue nos organizando primeiro como um CTU, nos registramos para a regularizacao, nos organizamos com o censo abrindo uma pasta para cada familia do setor, aonde fazemos um estudo socio-economico, se preenche certos requisitos que exigem, quando tudo isso esta levantado pelo mesmo CTU, se faz uma solicitude para a Oficina de Tierra para o levantamento cadastral.
Quais sao as lutas antecedentes a esta lei decreto?
As lutas por acesso à terra, principalmente dos que vivem nas favelas, nao tinhamos acesso aos creditos para melhorar as casas. Por nao ter o titulo de posse da terra, se podia ser desocupado com mais facilidade, porque nao era dono da terra ainda que tivesse 30, 40, 60 anos vivendo aí. Um dos pontos nesse projeto que o presidente apresenta, e o povo tambèm, è o reconhecimento das lutas. Esse decreto demora cerca de 4 anos para tornar-se lei, tambèm porque essa foi uma proposta que as instituiçoes nao tinham a menor vontade politica para que a regularizaçao acontecesse como tinha que ser, necesitava da lei.
Em junho de 2006, quando è sancionada e sai a lei, è quando se ativa e se acelera esta regularizaçao das terras; mas foi uma luta, a pesar do decreto, por isso dizemos que somos uma nova cara de uma velha luta. Esta luta se inicia no campo, existem comunidades cercadas pelas fazendas, cercadas por arames; simplesmente que na cidade se vem lutar mais perto do poder.
Por que aí se continua a luta, porque o problema sao os obstáculos das normas municipais, no caso das terras municipais, nao permitiam que se realizasse a regularizaçao, ainda que fosse um decreto. Entao, quando sai a lei, eles começam a modificar as normativas, e ainda estao nisso. Supostamente em 10 anos ja deve estar todo o processo de regularizaçao pronto.
Os CTU nao sao apenas um instrumento para a regularizaçao da terra, existem outras frentes de luta. A luta pelo direito à moradia digna, porque temos a terra, e a moradia? Entao, uma casa digna, com agua, saneamento, serviços, esta parte tambem.
Outra luta, è o tema do direito à cidade. As comunidades que estao super povoadas, que tem uma quantidade de familias amontoadas numa mesma casa, todo este diagnóstico os CTU tem, entao a partir dai surgem os novos urbanismos como propostas do CTU, aonde surgem o Campamento de Pioneros, que sao novas cidades, ou novos barrios…
O que è o Campamento de Pioneros?
È uma proposta de organizaçao que nasce dos CTU, quando levantamos o censo e temos 400 familias em um setor, mas 50 dessas familias estao vivendo em situaçao de risco, ou onde existem em uma mesma casa vivendo 2 ou 3 familias, que significa 18 ou 20 pessoas numa mesma casa. O CTU faz entao uma proposta ao Ministerio de Vivienda y Habitat, que sao os programas de melhoria e substituiçao de barracos.
Os CTU naceram antes dos Consejos Comunales (Conselhos Comunitarios), e tambèm esta organizado em comissoes de trabalho, è praticamente o mesmo.
Qual a relaçao entre os CTU e os Consejos Comunales?
Em alguns casos, quando è o CTU quem promove a formaçao do Consejo, se organiza com mais facilidade. Mas a forma como foi proposta os Consejos, em alguns casos tem gerado conflitos, porque um dos problemas foi que nao tomaram em conta os CTU nem os diagnosticos que ja tinhamos; fizeram umas comissoes de terra, quando ja estavam CTU registrados, com um trabalho em processo. E tambem que varios CTU se desintegraram na formaçao dos Consejos, se diluiram, porque vem o presidente e lança a proposta dos Consejos com a lei de uma vez, quando a gente durou 4 anos esperando a lei e trabalhando e fazendo um trabalho de base, ou seja, eu, de uma maneira pessoal, penso que foi um erro… bem, os CTU vem e assumem os Consejos, e muitos se desintegram, se esquecem e soltam o trabalho do CTU, que haviam lutado e tinham um trabalho importante.
Penso tambem que isso è algo que pouco a pouco se vai ajustando, e que na medida em que as pessoas vao entendendo o que è um Consejo Comunal, e que vao se articulando nas Comissoes de Terra tambem, que entendam que devem se envolver e participar tambem dos Consejos, todas essas coisas vao se resolvendo e quando saiam os regulamentos que vao ajudar a interpretar esses vazios que tem a lei dos Consejos.
Os Consejos trazem para a comunidade a figura assembleísta, aonde participam todas as organizaçoes de base de um setor, em comissoes de trabalho, vem para representar a articulaçao de todos, è uma questao que está contemplada nos CTU quando surgiram o que seria a organizaçao dos CPTH (comissoes para transformaçao do habitat). Os CPTH vinham sendo parecidos aos CTU, e permitiam a participaçao e a criaçao daquelas organizaçoes que a comunidade em assemblèia decidia que è necessaria ou que faz falta na área em que vivem, com a diferenca que as pessoas tem interpretado o Consejo como um poder absoluto e nao como tem que ser. Isso é o que venho observando em minha comunidade e nas comunidades proximas, como tambem vejo Consejos com éxito, gente que vem se preparando, que compreende que cada vocero se reune com sua organizacao de base e discute e apresenta propostas ao Consejo. Existem uma quantidade de Consejos que se formaram com essa mentalidade de democracia representativa, das Asociaciones de Vecinos, por exemplo em minha comunidade foi assim, as mesmas pessoas que faziam parte da Associaçao se repartiram em comissoes de trabalho, se reunem com nao mais que 20 pessoas e decidem. É algo que se tem que ir depurando na medida em que se saia os regulamentos e a mesma comunidade entenda também a proposta.
Os CTU nascem de uma maneira rapida, o povo entendeu a proposta e assumiu e comecaram a fazer os censos e as discussoes, de fato, os CTU tem conseguido uma maturidade e agora fazemos parte do Movimento de Pobladores (Habitantes). Aquí mesmo onde estamos, nos unimos com as lutas dos inquilinos, na campanha Zero Desalojo, com os trabalhadores dos edificios, os porteiros, que tambem é um colectivo grande que se soma a luta por uma habitacao digna. Hoje em dia os CTU é uma organizacao de base que vai mas além da luta por conseguir a titularidade da terra.
Quais sao as maiores dificuldades?
Veja, a realacao com as instituicoes tem sido difícil, pelo burocratismo, uma das coisas que tem dependido muito da vontade politica dos prefeitos em realizar a reforma das normativas municipais para que se possa organizar este processo, a exoneracao de impostos.
Ou em caso de uso-capiao, ja que uma familia tem 50 anos vivendo em um terreno, quando os ricos cercaram, cercaram, cercaram e registraram estas terras. Eram tantas terras que eles nunca haviam explorado, e se fizeram os bairros, e qunado se ia tirar o titulo de terra para melhorá-la, nao podia, porque esta terra pertencia a uma pessoa que nunca haviam visto, saía um dono da terra. Entao, para ter direito ao titulo da terra, significa ir a tribunal, que significa dinheiro, e tu tens que estar vivendo ai no minimo 30 anos, agora creio que reduziram para 10 anos. Entretanto, estas modificacoes se estao discutindo.
O problema com as instituicoes é a falta de vontade politica em dar resposta as pessoas, como se diz na constituicao, de maneira eficaz, eficiente.
Por isso, no Encontro Nacional do ano passado, fizemos quase 200 encontros locais preparatorios antes disso, apoiados pela Oficina Tecnica Nacional, este foi um dos pontos de discussao, como tambem as relacoes dos CTU com as comunidades; construimos propostas coletivas para apresentar ao presidente, com politicas para facilitar o acesso ao solo e a cidade socialista.
Se observamos a quantidade de imoveis vazios e terrenos que existem dentro da cidade, penso que aí conseguimos habitacao para todos que temos com déficit habitacional. Mas estes terrenos estao servindo de engorde, nao sao terrenos para pessoas que vem de classe baixa, para pessoas de um bairro, estao reservados para outros tipos de projetos capitalistas, entao aí é onde entra o tema das cidades socialistas. Sao terrenos que estao ai e que estao reservando para centros comerciais, para fazer hotéis. O povo, aquele que constroi a cidade, esta fora da cidade.
Os maiores donos de terra quase sempre sao os municipios, o Estado, e terrenos nacionais, mas tambem existem os terrenos privados, gente que cercaram, cercaram e registraram. Entao tem que negociar com o governo, é aí que entra a figura do uso-capiao, mas isso ainda é inviable para a pessoa humilde, porque tem que ir a julgamento. Entao se esta proponiendo a propriedade coletiva, que podia facilitar isso, a comunidade se torna dona do lote completo. Mas muita gente nao esta de acordo, com isso, o individualismo nao os permite ver o beneficio do que é coletivo. Nao se da regularizacoes de terra individuais, aquele que vai comprar de maneira individual tem que renunciar ao CTU. O CTU gestiona a regularizacao de um grupo de familias. Mas existem outras modalidades que é a titularidade coletiva, onde se faz levantamento mas o terreno todo esta nas maos de uma Associacao civil. Isso se aplica principalmente com os terrenos privados, é uma fortaleza para enfrentar a propriedade privada. A posse da terra tem todos, mas a casa sim é da familia, individualmente.
Os terrenos que sao de engorde, que estao perto do centro da cidade, aonde se desenvolve mais o comercio, para eles nao interessa a regularizacao destas terras nos bairros centrais, porque esta reservados para os grandes investidores internacionais para fazer negocios privados. O terreno publico vendido a ganacia privada, capitalista, individual.
Como começaste nos CTU?
Eu mesma comecei esta luta por onde vivo, é uma casa que tem mais de 30 anos de construida e é uma urbanizacao popular que se fez por auto-construcao, cooperativas ou grupos de pessoas que se reuniram e autogestionaram a construçao. E as casa, no decorrer destes 30 anos, se levantaram as casas e estas mesmas foram sofrendo deterioramento pelo tempo. Entao, quando vamos gestionar um credito para melhora das casas, sai que o Banco nao da credito a quem nao tem terreno proprio. Eram donos do imovel, mas nao da terra. Entao, estava eu ai, como dona de casa, e chega um pastor evangelico e me diz que estava em uma comunidade aonde as pessoas se organizaram e foram consertando as casas, e porque nao nos organizamos?
Reunimos entao umas 10 familias, e um chega e nos diz que temos que nos organizar em uma pessoa juridica, para poder falar com as instituicoes do Estado, e quando estamos para formar uma associacao, quem nos esta assessorando nos diz que temos que fazer um CTU, porque nao nos iam dar creditos porque as terras nao eram proprias. Me interessei primeiro com o objetivo de melhorar minha casa, convocamos um grupo para uma assembleia e foram umas 100 pessoas, ou seja, era uma necessidade; fomos nos reunindo e entendendo a proposta, e o trabalho se deu de uma maneira muito espontanea, quando uma comunidade tem uma necessidade… esse trabalho me fez compreender que se tem que ter um diagnostico para emprender qualquer coisa na comunidade, quando se toca a necessidade, quanto tu sente o que a gente necesita, entao ai surge, nao necesita fazer força. Se voce esta fazendo muita força para realizar algo na comunidade, aí quem nao entendeu foi voce.
Ai onde vejo a falha dos Consejos, que se armaram sem ver as necesidades, como se deu as necesidades dos titulos de terra. Se formaram 5000 CTU de uma vez, era um grito, entao. Lamentavelmente, muitos CTU se desintegraram e se desarticularam porque nao houve respostas das instituicoes, estamos em uns 3000 ativos, hoje.
Hoje me sinto muito identificada com com esse trabalho, é algo que me acompanha sempre, porque me envolvi nesse processo de transformaçao e de formaçao, estamos participando nas propostas de politicas que tem que ver específicamente com o direito a uma habitacao digna, ao acesso ao solo e ao direito a cidade, bem como o projeto de cidade socialista. Os CTU vao seguir nessa luta, ainda que inventem e facam coisas, os que estamos entendendo é que é um meio para a participacao na politica de dentro.
O que mais posso dizer sobre o caso RCTV que ja nao foi dito? Muita coisa. Inclusive, que o mais importante que acontece por aquí nao é a nao-renovaçao da concessao para esse ja citado canal de Televisao.
Dia 27 de maio de 2007 foi o ultimo dia do contrato de concessao da Radio Caracas de Televisión (RCTV), canal golpista e representante da oligarquia privada venezuelana, um grande monopolio da comunicaçao, criado durante a ditadura de PEREZ JIMENEZ. Depois de 53 anos de funcionamento, a RCTV teve sua concessao pùblica nao renovada pelo governo da Venezuela, sob uma medida constitucional. A RCTV vinha tendo sua concessao renovada automáticamente, e para ocupar seu lugar no espectro radioeléctrico se criou a TVES, televisora de serviço publico.
Essa medida contra RCTV nasce logo depois do golpe contra Chavez, e de seu retorno nos braços do povo. Foi feita uma reuniao com os meios de comunicaçao golpistas, para resolverem como ia caminhar o pais. Ou seja, se eles iam baixar o tom das ameaças. Granier (dono da RCTV; ou melhor, gerente) e Cisneiros (dono de VEnevision, outro gerente), os dois maiores monopolios de comunicaçao (concorrentes, portanto), tomaram atitudes distintas. Granier continuou atacando Chavez; Cisneiros, ao contrario, baixou a voz, e ainda deu um presente ao Líder Máximo: um dossier, preparado pelos melhores advogados do mundo, aonde exploravam exatamente em que pontos a RCTV poderia ser acusada para justificar a nao renovaçao da concessao (violaçao de direitos humanos, etc). Cisneiros sabia que Chavez ia ser aprovado no referendo popular, e que ia ficar por muito mais tempo. E aproveitou a chance para… bem, fazer o seu, como dizem.
Estou trabalhando em dois bairros da cidade de Caracas (Caricuao e San Agustin), em contato direto com os Consejos Comunales (Conselhos Comunitarios) e ativadores da Mision Cultura (parte do Terceiro Motor da Revoluçao Bolivariana, que se refere à educaçao revolucionaria em todos os espaços, nao somente nas instituiçoes de ensino), realizando oficinas de Pintura e Jornal Comunitario. Uma semana antes do ultimo dia de concessao publica da RCTV, havia muita tensao nas comunidades, muitos estocavam comidas em suas casas, diziam que a oposiçao ia tentar um novo golpe. Que todos os revolucionarios tinham que estar nas ruas.
Na noite do dia 27, enquanto os chavistas comemoravam a “vitoria popular pela democracia do espectro radio eletrico”, calma e pacíficamente, ao ritmo de salsa, merengue, reggaeton e muita cerveja, os manifestantes por RCTV se enfrentavam com a policia do outro lado da cidade. Nos bairros oposicionistas, protestos com panelaço fortes.
Entao, passou o que quase ninguem esperava: estudantes universitarios e secundarios sairam às ruas para defender a liberdade de expressao e RCTV, em varios estados do país. Ou melhor, o que ninguem esperava nao era que saissem às ruas: nao imaginavam que fossem tantos.Uma situaçao peculiar: estudantes levantam a bandeira da Liberdade de Expressao por RCTV, o grande monopolio RCTV é bastiao da liberdade, e a policia virou defensor do povo… diante da força das manifestaçoes, com o passar da semana, o governo foi convocando seus trabalhadores e estudantes bolivarianos a marchar para afirmar que o pais tem liberdade de expressao. Entao, um dia era marcha da oposiçao; outro dia, marcha da situaçao.
E as marchas continuam! Juntou-se ao cesse da concessao as insatisfaçoes com o governo, e uma questao que aconteceu dias antes, mudanças no sistema de ensino universitário. As principias mudanças foram o fim da Prova de aptidão (como um Enem local, feito pelo Ministério da Educação), e as provas internas de admissão, feitas pelas universidades. Como tudo que se decide aquí, ninguem entendeu nada (se era para as universidades publicas, privadas, como se ia ser feito o ingresso dos estudantes), e de qualquer maneira os estudantes sairam as ruas primeiro por Liberdade de Expressao (Marcha RCTV), depois por autonomia universitaria, e ao final de tudo era contra o governo, mesmo. Cada entrevistado dizia uma coisa. Alguns, muito interesantes, se manifestam mais sobre liberdade de opor-se que sobre liberdade de expressao, o que acredito ser a questao central deste dilema. Outros, dizem estar se opondo tambem contra as novas formas de organizaçao do poder popular, os Conselhos Comunitarios. Acreditam que nao se tem necessidade de estar inventando nem desfazendo nada, que se deve moralizar e fortalecer as instituiçoes ja existentes. Agora, estao dizendo que este è um movimento apolitico. Pois bem.
E o povo se cansando. Porque enquanto marchavam, os projetos estavam parados nas Prefeituras; os trabalhos parados na comunidades; as escolas, as ruas, os transportes, com funcionamento prejudicados. E mais: muitos chavistas nao aprovam uma medida tao radical contra RCTV, preferiam umas medidas de sobreaviso ate o cesse total. Consideram uma medida autoritaria, sem consulta popular. De fato, foi feito uma consulta popular, porem se recolheram somente assinaturas de quem estava a favor da medida, nao foi uma consulta plural. E consideram tambem que se for por programaçao ruim e desrespeito aos direitos humanos, QUE SE VAYAN TODAS! Inclusive os canais estatais.
O novo canal, TVES (cerca de 500 produtores independentes reunidos), nasce com a missao imposivel de agradar aos viuvos da RCTV, apesar de agradar a mim. Porque è educativo, porque è iniciante, porque nasceu no meio dessa pelega toda, porque nasceu com tres meses de gestaçao.
O ataque dos meios de comunicaçao chavistas aos estudantes oposicionistas è que sao burgueses, endinheirados; e em sua maioría sao mesmo, mas nao todos. Os primeiros deveriam se enxergar, e atacar tambem os novos-velhos revolucionarios, igualmente endinheirados, desfilando nas marchas com os melhores e mais importados carros, e nos melhores e mais burocraticos cargos publicos.
Ao inicio destas manifestaçoes, estavam todos (oposicionistas e chavistas) marcados pela nao disposiçao de dialogar, de debater. Os jornalistas (oposicionistas e chavistas), em varios momentos, protagonizaram um show de manipulaçao de entrevistas e acosso aos entrevistados; se liberdade de expressao é falar o que se quer da maneira que se imagina, com a unica responsabilidade de convencer a força a sociedade de seu ponto de vista, bem, entao parem as marchas que ja estamos livres.Depois de inflamaçoes e abusos de ambos os lados, para justificar os discursos (ja que todos estao falando pela liberdade de expressao…), Universidades, Televisoras, Assembleia Nacional, passaram a abrir seus espaços para o debate aberto sobre essas e outras questoes. Muitas oportunidades de debate frutifero foram perdidas, mas muitas ainda virao. As marchas esfriam, mas apesar de haver falta de gàs (e de oleo de cozinha), as coisas esquentam.E eu comecei meu texto escrevendo que aquí acontece muito mais coisas que essa Rebeliao RCTV, e è verdade. Ha muitas discussoes e experiencias boas acontecendo nos Conselhos Comunitarios, a comunicaçao alternativa e comunitaria floresce, a exploraçao de carvao em terras indígenas pela Vale do Rio Doce vai de vento em popa, a reflexao, nos espaços onde ela é requerida e praticada, flue. Espero escrever mais sobre isso em breve.
Mais algumas fotos… do Congresso Mundial de Mulheres da FEDIM (Venezuela; marzo 2007), dos murais de Caracas (este ai que segue duas unicas fotinhas, faz parte de um mural gigante e lindo, no Liceo Andrés Bello, contando um pouco da historia politica de Venezuela). E para quem tentou conhecer um pouco mais de Oscar, eco-educador, que se definiu como um mal educado e um indisciplinado, e entrou num site biblico (!!! desculpem o erro) no endereço http://osfer.blogspot.com
O Congresso foi legal, melhor pelas companheiras do MLST - SP e PE que conheci por lá!! Bandeiras, hinos e gritos de louvor demais pra mim, mas, bem…
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